“Às vezes, nós, cristãos, entendemos erroneamente o ‘dar a vida pelo Senhor’. Evidentemente, todo cristão deve estar pronto para dar a vida por Ele, todavia, não com uma atividade desenfreada, e sim dia após dia servindo na missão a Ele confiada e observando também o necessário descanso. É muito importante cuidar do corpo, da mente e do espírito, pois somos o templo vivo do Espírito Santo que Ele nos deu.” (Mérzerville, Helena Lópes de. “O desgaste na vida sacerdotal: prevenir e superar a síndrome de Burnout: o esgotamento na vida sacerdotal. Paulus, 2012. P. 132).
A relação entre desempenho e depressão é mais íntima do que muitos imaginam. Como observa Mérzerville, o ativismo contínuo e sem pausas, dia após dia, compromete seriamente a saúde emocional. No contexto pastoral, por exemplo, a busca incessante por resultados, produtividade e aprovação pode se tornar uma armadilha sutil, travestida de zelo espiritual, que conduz à exaustão (síndrome de Burnout) e, em muitos casos, à depressão.
Por mais nobre que seja a causa, por mais elevado que seja o chamado, o trabalho em excesso é extremamente prejudicial. Se a preguiça deve ser evitada, o seu oposto, o excesso de trabalho, também deve. Conhecemos bem a frase socrática que diz: “Conhece-te a ti mesmo.” Mas o que poucos sabem — eu mesmo não sabia, e você também não é obrigado a saber — é que essa é apenas uma das três inscrições gravadas no templo de Delfos, na antiga Grécia, seguindo esta ordem:
1. Nada em excesso;
2. Comprometer-se traz preocupação;
3. Conhece-te a ti mesmo.
Vamos examinar rapidamente essas três máximas:
1. Nada em excesso – O sentido original dessa inscrição era o de que o suplicante não deveria fazer perguntas demais ao oráculo, pois ele só responderia uma. Portanto, era necessário pensar bem antes de pedir. Como bem diz o texto de Tiago: “Pedem e não recebem, porque pedem mal, para esbanjarem em seus prazeres.” (Tg 4.3)
Pensando teologicamente, o excesso no trabalho pastoral pode ser fruto da vocação insana de querer ser e agir como Deus — Aquele que tudo pode. No livro Cuidando de quem cuida, a psicóloga Roseli Kühnrich fala da “síndrome do messias”, que acomete profissionais envolvidos em causas humanitárias, que, diante de tamanha demanda, querem dar conta de tudo e acabam esquecendo de si mesmos (2012, Ed. Sinodal, p. 72). Não foi isso o que, de certo modo, Moisés estava fazendo até ser advertido por Jetro? (Êx 18)
No livro Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han diz que “O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo — e quiçá deliberadamente — sem qualquer coação externa. É agressor e vítima ao mesmo tempo.” (2019, Vozes, p. 28) Será que os casos frequentes de depressão entre pastores apontam para uma autoexploração silenciosa?
2. Comprometer-se traz preocupação – Na Antiguidade grega, era inconcebível fazer promessas aos deuses que não pudessem ser cumpridas. Prometer além das próprias forças era agir com irresponsabilidade, uma afronta ao divino. Esse princípio ecoa de forma significativa na teologia cristã, tendo em vista que a relação para com Deus não se constrói por meio de uma produtividade desenfreada, como se a fé estivesse atrelada ao desempenho — e a exaustão fosse sinal de santidade. Deus não é patrão. Deus é Pai!
O comprometimento no serviço do Reino de Deus é importante. Resultados também são importantes, desde que não surjam em prejuízo e em detrimento da nossa saúde. Vale destacar que Deus não espera de nós mais do que, segundo os dons e talentos dados por Ele, nós podemos realizar. A Bíblia deixa isso bem claro quando diz: “Tudo o que vier às suas mãos para fazer, faça-o conforme as suas forças, porque na sepultura, para onde você vai, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.” (Ec 9.10)
3. Conhece-te a ti mesmo – Dentre as três inscrições, esta é certamente a mais conhecida. Conhecer a si mesmo implica reconhecer os próprios limites, aceitar a própria humanidade e saber onde se pisa. Mas qual é a finalidade desse conhecimento? O conhecimento de si, que não é autoconhecimento, não deve se reduzir a uma especulação filosófica estéril.
Foucault, ao refletir sobre o sentido do cuidado de si na filosofia grega, afirma: “É um imperativo proposto àqueles que querem governar os outros, e em resposta à questão: ‘Como se pode governar bem?’. Cuidar de si é um privilégio dos governantes ou, ao mesmo tempo, um dever dos governantes, porque eles têm que governar.” (2024, Ed. Martins Fontes, p. 94)
Talvez a falha mais sutil — e, ao mesmo tempo, mais perigosa — no ministério pastoral seja o descuido de si. Como o pastor pode cuidar bem dos outros, sem cuidar bem de si mesmo? O apóstolo Paulo, com a sensibilidade de quem conhecia bem o peso do chamado, disse para Timóteo: “Cuida de ti mesmo e da doutrina.” (1Tm 4.16) O que ele estava dizendo para o jovem pastor Timóteo — e, por extensão, para todos nós, pastores — é que, antes de alimentar o rebanho, precisamos alimentar a nossa própria alma; antes de cuidarmos dos outros, precisamos aprender a cuidar de nós mesmos. Isso não tem a ver com egoísmo e vaidade, tem a ver com espiritualidade sadia e boa autoestima.
Deus não quer pastores exaustos, consumidos por um desempenho frenético. Ele deseja pastores vivos, inteiros e saudáveis.
E aí, você está se cuidando? Ou, movido por um desejo pouco espiritual de alcançar resultados exponenciais, tem colocado em risco a qualidade da sua saúde espiritual, emocional e física?