Artigo

Aspectos psicológicos do SHABAT

Shabat é mais do que descansar. Shabat é desligar. Até porque, se não desligar, não tem como descansar. Vivemos um tempo em que o convite é para ficarmos ligados o tempo todo. O slogan de um canal de TV capturou essa subjetividade e criou o slogan: “Sempre em dia com a notícia. Não desliga nunca”.

 

Sou de um tempo, penso que a maioria dos leitores do OJB também seja desse tempo, em que as TVs saíam do ar em determinado horário, por volta da meia-noite, por exemplo. A TV Globo encerrava a sua programação com a seguinte mensagem: “Faremos agora uma pequena pausa em nossa programação. Apenas o tempo necessário para você despertar para um novo dia, uma nova vida. Logo, estaremos juntos novamente”.

 

Hoje em dia, para o deleite dos notívagos, praticamente todos os canais de TV funcionam 24 horas por dia. Isso sem contar os streamings e tantas outras plataformas da internet. Tempos modernos, que trouxeram novas formas de adoecimento. A infodemia, nomenclatura que caracteriza o excesso de notícias, na maioria falsas, tem contribuído para aumentar o índice de ansiedade em muitas pessoas por conta das notícias catastróficas e apocalípticas.

 

A nomofobia, medo de ficar sem poder usar o celular, é um sério problema de saúde mental. Segundo a Flurry Analytics, a nomofobia afeta 176 milhões de pessoas no mundo. Um outro problema sério referente ao uso excessivo das mídias é o isolamento social, que tem afetado de modo contundente a vida das nossas crianças, adolescentes e jovens. Indico aqui a leitura dos livros: “Dependência de internet em crianças e adolescentes”, escrito por Kimberly S. Young e Cristiano Nabuco de Abreu; e “A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para as nossas crianças”, escrito por Michel Desmurget.

 

Ficar ligado/conectado o tempo todo é extremamente viciante. No livro “Sociedade Excitada”, Christoph Türcke diz que: “Da mesma forma que, quando a televisão quebra, a família não volta simplesmente a jogar dominó, assim também quem tem o computador danificado não retorna alegremente para boa e velha máquina de escrever. Em vez disso, ocorrem casos de sintomas de abstinência vitais, como se os envolvidos fossem pacientes dos quais se retirasse o soro.” (2010. Editora da Unicamp. p.46).

 

Se apresento esses dados e faço essas considerações, não é para demonizar a tecnologia, a internet, mas para chamar a atenção para o fato de uma nova subjetividade que está aos poucos eliminando o Shabat, enquanto um tempo de desligar. Não adianta falar em parar para descansar sem se desligar. O psiquiatra Augusto Cury identificou uma nova forma de comprometimento da saúde mental, que denominou como “síndrome do pensamento acelerado” (SPA). A pessoa pode estar parada, até mesmo deitada, mas o pensamento continua a mil por hora. Em situações assim, a pessoa amanhece indisposta, com o corpo pesado, por vezes até com dor de cabeça, porque foi para a cama, mas, por não ter se desconectado, desligado, de tantas situações e informações, não conseguiu relaxar e dormir e, por consequência, o corpo não pode se recompor.

 

Mas, não vamos colocar todo o peso de culpa na tecnologia. Na teoria psicanalítica, a profusão de pensamentos, sob a forma de preocupações, é o principal sintoma da neurose obsessiva. A partir de suas observações e estudos, Freud concluiu que, na histeria, o conflito psíquico é deslocado para o corpo, daí os ataques histéricos, que, em alguns casos, podem ser confundidos com possessão demoníaca, por conta das contrações do corpo. Observe bem, não estou dizendo que toda possessão demoníaca é um ataque histérico. No caso da neurose obsessiva, o deslocamento não é para o corpo, mas para o pensamento. O movimento inconsciente de aprisionamento pela via dos pensamentos impede que o obsessivo entre em contato com a causa, com a origem, do seu sofrimento. Esse movimento inconsciente pode ser exemplificado pelo ditado popular que diz: “Mente desocupada é oficina do diabo”. Os pensamentos e as práticas ritualísticas do obsessivo funcionam como forma de aprisionamento de um desejo recalcado.

 

Mas, não vamos colocar todo o peso de culpa na tecnologia. Na teoria psicanalítica, a profusão de pensamentos, sob a forma de preocupações, é o principal sintoma da neurose obsessiva. A partir de suas observações e estudos, Freud concluiu que, na histeria, o conflito psíquico é deslocado para o corpo, daí os ataques histéricos, que, em alguns casos, podem ser confundidos com possessão demoníaca, por conta das contrações do corpo. Observe bem, não estou dizendo que toda possessão demoníaca é um ataque histérico. No caso da neurose obsessiva, o deslocamento não é para o corpo, mas para o pensamento. O movimento inconsciente de aprisionamento pela via dos pensamentos impede que o obsessivo entre em contato com a causa, com a origem, do seu sofrimento. Esse movimento inconsciente pode ser exemplificado pelo ditado popular que diz: “Mente desocupada é oficina do diabo”. Os pensamentos e as práticas ritualísticas do obsessivo funcionam como forma de aprisionamento de um desejo recalcado.

 

No livro “A arte de se salvar”, Nilton Bonder diz que: “Na pausa não há arbítrio ou livre-arbítrio. Entregar-se é a única forma de navegar pelas pausas, e quando não compreendemos essa lei de seu fluxo, ficamos bastante angustiados.” (2005. Ed Imago. p.60). Para pausar é preciso desligar. Quem não desliga, não pausa, não relaxa, não descansa. Mas, para desligar, é preciso deixar de querer controlar todas as situações. Quem quer ficar com o controle na mão não consegue relaxar para descansar. Daí a necessidade de compartilhar, dividir as responsabilidades e confiar nas pessoas, e, acima de tudo, em Deus (Sl 37.4,5).

 

O Shabat está associado a essas três palavras: pausar-desligar-confiar. Na nossa cultura pós-moderna, estabelecer períodos de pausa não tem sido uma tarefa fácil. Tudo está acontecendo com tanta velocidade que, a todo instante, somos impelidos a fazer mais, bater novas metas, adquirir e acumular mais do que precisamos. No livro “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman diz que: “Ser moderno hoje passou a significar, como significa hoje, ser incapaz de ficar parado.” (2001. Ed Zahar. p.37).

 

Mas, preste bem atenção nisso: se você não parar, você pode ser parado. Se você não desligar, pode ser desligado. E aí... “Inês é morta.”