Pouco antes de seguir para a cruz, Jesus se levantou da mesa, tirou a capa e colocou uma toalha na cintura. Em seguida, lavou os pés dos discípulos. Pedro ficou constrangido. A cena contrariava tudo o que ele esperava do Mestre. Ao terminar, Jesus explicou: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15). Naquele ambiente simples, Cristo revelou o fundamento da liderança cristã.
A bacia estava diante de homens que, poucas horas depois, fugiriam com medo. Judas, já decidido a trair o Mestre, também estava ali. Mesmo sabendo o que aconteceria, Jesus lavou-lhes os pés. Seu serviço não dependia do reconhecimento ou da gratidão que receberia. Ele serviu porque isso expressava seu caráter. Quem lidera como Jesus aprende que o valor do serviço não é medido pela reação das pessoas.
Essa atitude nascia da segurança que Jesus tinha diante do Pai. João registra que ele sabia de onde viera e para onde iria. Sua identidade não dependia da posição ocupada à mesa nem da aprovação de quem estava ao redor. Por isso, podia ajoelhar-se sem perder a autoridade. A liderança se torna perigosa quando o cargo passa a sustentar o valor pessoal do líder. Quem precisa provar o tempo todo que manda dificilmente encontra liberdade para servir.
John Piper escreve em Irmãos, Nós Não Somos Profissionais: “Os objetivos de nosso ministério são eternos e espirituais”. A frase recoloca o coração do líder diante do essencial. Uma igreja pode ter agenda cheia, boa organização e projetos bem executados. Ainda assim, o trabalho pastoral precisa alcançar a consciência, alimentar a fé e conduzir pessoas a Cristo. Técnicas podem ajudar, desde que permaneçam como ferramentas. O ministério é realizado com oração, Palavra, caráter e dependência do Espírito Santo.
Jesus também liderava prestando atenção às pessoas. Viu Zaqueu entre os galhos de uma árvore, ouviu Bartimeu quando a multidão tentava calar, conversou com a mulher samaritana e procurou Pedro depois da queda. Seu olhar percebia o que outros ignoravam. Igrejas possuem números, relatórios e metas, porém são formadas por gente com nomes, histórias, feridas e esperanças. Um líder pode conduzir uma multidão e conservar a capacidade de enxergar uma pessoa.
Os discípulos receberam de Jesus tempo, ensino e responsabilidade. Ele respondeu a perguntas, corrigiu ambições, suportou a lentidão do aprendizado e confiou-lhes tarefas. A formação aconteceu pelo caminho, nas casas e durante as crises. Jesus preparou seus seguidores para continuar a missão. Liderar bem inclui abrir espaço para que outros cresçam, sirvam e assumam responsabilidades com maturidade.
John Stott, em O Chamado para Líderes Cristãos, fala de “humildade diante de Cristo, de quem somos servos […] e diante da congregação, cujos membros devemos amar e servir”. Essas palavras atingem uma tentação frequente: tratar a igreja como propriedade pessoal. O rebanho pertence a Cristo. Essa consciência muda a maneira de decidir, de corrigir, de ensinar e de lidar com o reconhecimento. O líder continua sendo servo quando recebe elogios e quando suas escolhas não são compreendidas.
Jesus conhecia o peso das decisões difíceis. Acolheu os feridos e também confrontou a hipocrisia. Corrigiu os discípulos quando disputaram posições, repreendeu Pedro e expulsou os comerciantes do templo. Seu amor incluía coragem para dizer a verdade. Liderança servidora não significa passividade ou medo de desagradar. O serviço cristão procura o bem das pessoas e, por isso, às vezes exige conversas firmes, limites claros e decisões que não produzirão aplausos.
Quando os discípulos voltaram a discutir sobre grandeza, Jesus lhes disse: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mc 10.43). E explicou sua missão: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). O serviço de Jesus chegou à cruz. Ali, ele entregou a vida pelas pessoas que veio salvar. A cruz desmascara a vaidade, o desejo de controle e a busca de prestígio.
Jesus não permitiu que a popularidade determinasse sua direção. Houve dias em que multidões o cercaram e outros em que muitos o abandonaram. Sua fidelidade ao Pai permaneceu. O líder cristão deve ouvir conselhos, reconhecer erros e prestar contas, sem fazer da opinião pública o senhor da consciência. Nem todo aplauso confirma uma decisão, nem toda crítica prova que ela esteja errada.
Talvez o exame mais honesto da liderança esteja no fruto que ela deixa nas pessoas. Depois de caminharem conosco, elas conhecem melhor as Escrituras? Amam mais a Cristo? Estão mais prontas para servir? João Batista resumiu sua vocação dizendo: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). Liderar como Jesus é trabalhar para que Cristo seja visto, amado e obedecido. A igreja precisa de líderes preparados e corajosos, mas precisa, sobretudo, reconhecer neles o caráter do seu Senhor.
Referências
PIPER, John. Irmãos, nós não somos profissionais: um apelo aos pastores para terem um ministério radical. São Paulo: Shedd Publicações, 2009.
STOTT, John R. W. O chamado para líderes cristãos. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.