Artigo

A autonomia da responsabilidade

Rubin Sloboditcov, pastor, colaborador de OJB 

 

Um bom texto base é o contexto de João 9. 3. 

É justo responsabilizar outras pessoas pelas ações que praticamos? Então, levantamos alguns "bodes expiatórios": a genética, como a química provocada pelo desequilíbrio hormonal; o temperamento recebido por herança; o fracasso dos pais durante nossa infância; a maneira com que fomos criados; a educação e a sociedade. Foi o que alguns indagaram a Jesus, a respeito da morte: “Mestre, quem pecou para que isso acontecesse?” Ao que Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo. 9: 3). 

 

É verdade que muitas coisas poderiam ser consertadas com o aprimoramento do comportamento humano. E, lá estava um paralítico sobre o qual impunham uma série de restrições. Algumas levantavam questões de genética: “Será que seus pais são culpados?”  E, certamente a pior era atribuída ao pecado: “Quem errou? Ele ou seus pais?” E, eis que surge Jesus para dizer: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestassem as obras de Deus”. 

 

Cada um é responsável por si mesmo. Nisso reside a autonomia da responsabilidade. Como podemos entendê-la? 

 

   1. É uma questão da liberdade e dignidade. 

 

   O que impede de sermos programados para ter um comportamento correto? A autonomia e a consequente atribuição de suas consequências nos fazem  livres e dignos de colher o que plantamos. Enquanto paralítico, esse moço criou seu ambiente social; pode se amoldar adequadamente ao comportamento dos que conviviam ao seu redor inclusive. 

  Na verdade, livre e digno de ser o que era, ele criou seu ambiente e ele próprio o controlou, estabelecendo assim, ao mesmo tempo,  um controle da sua própria individualidade na coletividade. 

    A liberdade e dignidade humana têm dificuldades de observar e crer no que o homem pode fazer do próprio homem. Aqui está a autonomia da nossa responsabilidade. Como entendê-la? 

 

   2. É uma questão moral e social. 

 

Agora lidamos com a intenção da mente e da vontade. Os observadores, ou atribuíam culpa aos pais ou ao próprio homem por seu estado. Imagine se vivesse a penalizar a genética ou a criação social como responsáveis por seu destino! Nem a sua negligência pessoal a livraria da sua liberdade para fazer escolhas responsáveis. 

 

   A tendência é o instinto da computação: ser programado para fazer e responder, como se pudéssemos viver instintivamente. Dentro de um contexto razoável somos agentes livres, capazes de tomar decisões a ponto de agir com independência; tão capazes que podemos reprovar a nós mesmos quando reconhecemos que fizemos escolha errada. 

 

E, lá estava um homem crivado de implicações morais e sociais: “Quem errou para que viva assim?” E Jesus afirma: “Nem ele e nem seus pais!”  

 

Muitos vivem condicionados pela estrutura emocional e psicológica que herdaram, que não conseguem enxergar a natureza e a soberania de Deus na vida dos semelhantes. 

 

A liberdade de escolha traz consequentemente responsabilidade moral e social também. 

 

A natureza humana, as condições de vida e a graça de Deus, ainda hoje, ou amoldam o comportamento ou o restringem, ou, limitam ou ampliam ainda mais a autonomia da nossa responsabilidade. E, como podemos entendê-la um pouco mais? 

 

    3. É uma questão da dádiva divina.  

 

Mesmo que as pressões condicionem e nos controlem, ainda assim mantemos permanente a nossa responsabilidade moral. A Bíblia diz o que nós somos “em Adão”: é uma questão de herança. Herdamos uma natureza que está manchada no ponto central do nosso eu. Jesus disse que é de dentro do coração que procedem os pensamentos maus e as más ações (Mc. 7.21 a 23); que o pecador é escravo do pecado (Jo. 8. 34). Escravos da moda e da opinião pública; escravos da natureza caída; escravos das forças demoníacas. 

 

E, mesmo que libertos de tudo isso pelo poder da graça de Deus, Paulo exclama: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm. 7. 25b). 

 

 A autonomia da nossa liberdade nunca deixa Deus se esquecer como fomos formados e se lembra de que somos pó, e, por isso mesmo Ele é lento para se irar conosco e não nos trata como os nossos pecados merecem (Sl. 103. 10 e 14). Jesus foi gentil para com os fracos, ao se referir a profecia de Isaías, ao dizer que se recusava a quebrar a cana machucada ou de apagar o pavio que fumega (Is. 42: 1 a 4). 

 

A graça de Deus coloca diante de cada um de nós a necessidade de escolher entre a vida e a morte, o mal e o bem, entre Ele e os ídolos que criamos. E, Jesus respondeu aos questionadores: “Isso aconteceu na vida desse homem para que a glória de Deus se manifestasse” (Jo; 9: 3). 

  

Eis, então, a questão da dádiva divina diante da autonomia da nossa responsabilidade. A responsabilidade faz parte da nossa própria dignidade; ela é a substância da própria existência. De modo que não somos pecadores simplesmente porque somos fracos, mas porque nos entregamos a fraqueza. 

 

Quiseram colocar nos ombros do paralítico um peso que não era dele. Mas, Jesus assegurou: ele não pecou e tampouco seus pais - ele nasceu assim para que a glória de Deus nele se manifestasse. 

Você é assim para que a glória do Senhor brilhe no seu coração. Então, deve permitir isso; deve olhar para si mesmo e para Deus que o criou. Existe dentro de cada coração uma capacidade que o faz decidir pelo melhor. 

 

A responsabilidade reside na capacidade de tomar decisões: cada um é responsável por seus próprios atos. 

 

Agora é ouvir Jesus dizer: “Você é assim para que a glória de Deus se manifeste”. Então reconheça a sua situação e entregue mais sua vida nas mãos de Deus. E, ore recebendo-o no seu coração. Amém. 

 

 
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