Vivemos em uma época de conexões frenéticas e insistente, mas de relacionamentos fluidos e que se gastam facilmente. Assim, o tema dos batistas brasileiros: Somos Um, com base no texto da Bíblia: “para que eles sejam um, assim como nós somos um” (Jo 17.11) é muito bem-vindo.
Agora, as interações humanas assemelham-se a redes de Wi-Fi: conectamos e desconectamos ao sabor da conveniência, sem a necessidade de compromisso moral e espiritual. Essa fluidez das relações superficiais criou uma geração de cristãos nômades, que enxergam a igreja como um aplicativo que pode ser desinstalado ao primeiro sinal de erro ou desconforto. São cristãos que cancelam um relacionamento num clique.
Entretanto, o comissionamento discipular de Jesus registrado em Mateus 28.19-20 caminha na contramão dessa fluidez. Ele não convoca seguidores que cancelam ou são cancelados, mas faz um chamado para fazer discípulos e promover a cura. O Ide de Jesus requer permanência e responsabilidade: não se faz um discípulo à distância ou apenas enquanto tudo vai bem. O discipulado é o compromisso de “ensinar a guardar todas as coisas”, o que inclui correção, suporte mútuo e convivência.
Zygmunt Bauman alerta sobre a falta compromisso, que gera o cancelamento, a falta de permanência. Se a modernidade líquida nos ensina a abandonar o barco quando a onda cresce, o Evangelho nos ordena a remar juntos, entendendo que o vínculo com o corpo de Cristo não é um contrato de consumo, mas uma aliança comprada e selada com sangue (I Pedro 1.18-19).
O discípulo de Jesus – regenerado e justificado – não procura uma igreja que o satisfaça, mas uma comunidade onde ele possa servir, ser moldado e, acima de tudo, onde a sua palavra de compromisso tenha mais peso do que a sua vontade de fugir e de cancelar a missão.
Vivemos em uma era de laços frágeis, onde os compromissos são válidos apenas enquanto geram satisfação imediata. Dizem por aí que em algumas igrejas a porta dos fundos é mais larga que a porta de entrada. Entra gente e sai gente. É o tempo da fluidez nos relacionamentos, e quando transpomos isso para a fé, a igreja deixa de ser um corpo místico e passa a ser tratada como um balcão de serviços.
Na modernidade líquida, o “eu” é o centro soberano. Isso se reflete quando as pessoas priorizam seu bem-estar emocional momentâneo em detrimento do compromisso e permanência junto a uma igreja local. Isso tem gerado duas consequências:
Relacionamentos fluídos: quando um namoro/noivado termina, a igreja - que deveria ser o porto seguro para a restauração do coração - é descartada apenas para evitar o desconforto de encontrar o ex-parceiro. O mesmo ocorre com os desgastes de lideranças.
Rejeição a autoridades: vivemos em uma era de baixa tolerância ao erro exposto. Quando um membro é exortado ou disciplinado por um pecado, em vez do arrependimento e da submissão ao processo de cura, ele prefere o auto cancelamento e a busca por um novo grupo que não conhece seu histórico.
Bauman aponta que as relações humanas hoje seguem a lógica do mercado. Na igreja, isso transforma o fiel em um cliente e a igreja em um produto de consumo. Alguns membros abandonam a igreja local não por questões doutrinárias, mas porque seu vínculo era com o afago emocional esperado, ao gosto do cliente. Sem isso, ele rompe o vínculo baseado em apenas dar e nunca ofertar.
Nesta relação de consumo, o grupo passa a ser um clube, uma espécie de fastfood, e o relacionamento passa a ser do tipo test-drive, que não aprofunda, não arrisca e não cria raizes, como observa Bauman em seu livro Amor líquido: Viver junto [...] assume a forma de um test-drive. Na era da 'modernidade líquida', a ideia de compromisso é vista como uma armadilha, algo que pode limitar as opções futuras. (BAUMAN, 2026, 2021, p. 30)
O discipulado de Jesus Cristo tem caráter recíproco, uma via de duas mãos. As pessoas estão carentes de amor e acolhimento verdadeiro, profundo. Quando a expectativa não é suprida, a relação é rompida, pois os vínculos líquidos são conexões fáceis de desconectar e não relacionamentos de compromisso e permanência.
Diante disso, nesta era do auto cancelamento, precisamos levar as pessoas do nosso grupo a um aprofundamento relacional com Deus e com o próximo; a sair da fluidez do amor líquido rumo ao discipulado sólido e profundo.
Em contraste com a fluidez dos relacionamentos modernos, o discipulado sólido proposto por Dietrich Bonhoeffer nos convida a uma ruptura total com a graça barata, com a cultura do auto cancelamento. O discipulado de Cristo é pressuposto na obediência radical, onde a morte do velho eu não permite retroceder, pois Pedro, o discípulo que mais tentou ser cancelado ensinou: “Sirvam uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como encarregados de administrar bem a multiforme graça de Deus” (I Pe 4.10)
Enquanto os relacionamentos líquidos fogem do compromisso e da permanência para preservar a liberdade, o discipulado sólido encontra a verdadeira liberdade justamente na entrega absoluta e no vínculo inquebrável que resiste à trend do momento: o auto cancelamento.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. São Paulo, SP: Zahar, 2021.
BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2016.
BÍBLIA NAA (Nova Almeida Atualizada). Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
Wanderley Lima Moreira, pastor da Igreja Batista Nova Esperança, em Marataízes - ES