Artigo

Mate-me de uma vez

Ǫuem proferiu essas palavras? Nada mais, nada menos do que Moisés, que, segundo o texto bíblico, era “muito manso” (Números 12.3). Enganam-se redondamente os que pensam que pessoas calminhas, quietinhas, de fala suave, são sempre muito equilibradas — do tipo que se sentariam sobre um formigueiro sem sentir nada. Pessoas mansas quando explodem...

 

No último ano da faculdade de Psicologia, fiz estágio no hospital psiquiátrico Nise da Silveira, no setor de acolhimento à crise. Assim que cheguei ao local de trabalho e vi pacientes agitados, andando pelos corredores e dizendo que eram César, que eram Deus, confesso que fiquei assustado.

 

No primeiro encontro com o psiquiatra responsável pelo setor, ouvi dele as seguintes palavras: “Não fique tão preocupado com os pacientes que estão agitados, andando de um lado para o outro no corredor, por vezes falando alto. Mas, preste muita atenção naqueles que estiverem quietinhos. O silêncio deles pode ser sinal de que estão desistindo ou tramando contra a própria vida.”

 

Aprendi, então, que pessoas muito quietinhas e mansas podem ser perigosas para si mesmas. Tem muita gente adoecendo e morrendo vítima de si própria, por conta de um silêncio sepulcral. Gente que engole as emoções – raiva, ira, indignação, demonstrando uma mansidão, uma serenidade e um autocontrole que, na verdade, não existem. Por que agem elas agem assim?

 

Será que a mansidão de Moisés estava ligada à sua dificuldade de expressão? A Bíblia afirma que ele era “pesado de língua” (Êx 4:10) — texto que muitos interpretam como referência à gagueira. Não seria essa suposta mansidão, na verdade, uma forma de autoproteção, um receio de se expor publicamente por causa de sua limitação na fala? Sabemos que Moisés cresceu no Egito, distante do convívio familiar. Não estaria sua postura contida relacionada a uma espécie de inibição sintomática, desenvolvida em meio a figuras de autoridade e a um ambiente pouco afetivo? Ou seria ele, de fato, alguém naturalmente tranquilo, sempre lidando com as adversidades com muita serenidade? Confesso que essa última hipótese me parece improvável, especialmente quando lembramos que num acesso de fúria, Moisés foi capaz de matar um egípcio.

 

A Bíblia diz que “o Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com o seu amigo” (Êx 33:11). E foi justamente com Deus, seu grande amigo, que Moisés explodiu, dizendo: “Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei favor aos teus olhos, visto que puseste sobre mim a carga de todo este povo? Acaso fui eu quem concebeu todo este povo? Fui eu quem o deu à luz, para que me digas que o leve no colo, como a babá leva a criança que mama, até a terra que prometeste dar a seus pais? Onde eu poderia conseguir carne para dar a todo este povo? Pois chora diante de mim, dizendo: ‘Dê-nos carne para comer.’ Eu sozinho não posso levar todo este povo; é pesado demais para mim. Se me tratas assim, mata-me de uma vez” (Nm 11.11–15).

 

Imagine um gestor esgotado, pressionado por liderar uma grande equipe, mas sem receber o apoio necessário de seus superiores. Até que um dia, tomado por alto nível de estresse, ele entra na sala do chefe sem sequer bater à porta e desabafa: “Não aguento mais. Não consigo desenvolver meu trabalho desse modo. Estou me sentindo sozinho, sem apoio. Se for para continuar assim, estou fora. Pode me demitir.” Foi mais ou menos isso o que Moisés fez — com uma diferença fundamental: ele estava falando com Deus.

 

Um detalhe que julgo muito importante destacar: não encontramos na Bíblia, um único relato de alguém que, ao abrir o coração diante de Deus — ainda que de forma dura ou pouco polida, como fez Moisés —, mas com sinceridade e contrição, tenha sido repreendido ou castigado por isso. Ao contrário, a Bíblia diz que Deus jamais despreza aquele que se aproxima d’Ele com o coração quebrantado e contrito (Salmos 51.17).

 

Aprendemos com Moisés que não precisamos ter medo de abrir o nosso coração diante de Deus. Deus entende nossas emoções. Portanto, não tenha medo de expressar sua raiva, sua ira, sua insatisfação ou, por que não dizer, sua indignação diante desta ou daquela situação. Aprenda a derramar o seu coração diante de Deus. Mas, considere também a possibilidade de fazer isso buscando a ajuda de alguém que Deus pode usar para ouvi-lo com empatia e compaixão.

 

Uma coisa é certa: ficar calado, dando a impressão de que está tudo sob controle, quando, na verdade, sentimentos de raiva, ira e desamparo estão dominando o seu mundo interior, não é saudável e muito menos bíblico. É preciso falar, expressar, jogar para fora o que você está sentindo, assim como Moisés fez. Considere que a fala cura. A fala liberta. A fala promove saúde espiritual, emocional e física. 

 

 Ailton Gonçalves Desidério 

Pastor titular da PIB Lins - RJ

Pastor interino da IB Méier - RJ 

Psicólogo clínico e palestrante