Notícia

História de fé e heroísmo

Willian Edwin nasceu em uma pequena comunidade rural, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos da América, chamada Blythewood, em 25 de dezembro de 1859. Toda sua família era Batista.

 

No início de sua adolescência aos 12 anos, Entzminger decidiu entregar sua vida a Jesus e logo em seguida foi batizado. Estudou na Universidade de Furmam, também na Carolina do Sul. Nesta época, Deus já estava falando ao seu coração para que ele se preparasse a fim de ser missionário fora do seu país. Concluiu o seu curso e estudou no Seminário Teológico de Louisville, no Kentucky.

 

Enquanto cursava o seminário frequentava a Harmony Baptist Church. Namorava a jovem Maggie Griffith (no Brasil, conhecida como Graça), filha do pastor da Igreja, que mais tarde seria sua esposa.

 

Como era comum entre os missionários, Willian pretendia ir para a China. Um certo dia, ele recebeu um folheto, escrito pelo missionário Z.C. Taybroom uma convocação para os campos missionários brasileiros. Este folheto tocou profundamente seu coração e, a partir daí, passou a pensar em vir para o Brasil.

 

Em junho de 1891, Willian foi consagrado ao santo ministério. Casou-se logo depois e, em Richmond, na Virgínia, o casal juntou-se a outros dois, os J.J. Taylor e os Dowing, e vieram para o Brasil.

 

O casal chegou ao Brasil em 11 de agosto de 1891. Aprenderam o português na casa de Z.C. Taylor, que estava evangelizando na capital baiana. Willian, logo de início, gostou muito da Bahia e em pouco tempo já estava pregando.

 

Entzminger adoeceu e contraiu febre amarela. Chegou a ser desenganado, tão mal ficou. Alguns médicos deram sua morte como certa. Recuperou-se se, lentamente, com as orações da esposa e dos outros missionários. Algumas pessoas chegaram a pensar que ele desistiria do Brasil. Mas ele aqui ficou, firme. Curado, foi com a esposa para Recife, junto com Salomão Ginsburg. Ali só havia uma Igreja Batista, que estava há três anos fechada. Era tempo de grande perseguição católica no Estado. Durante alguns anos, Entzminger se dedicou totalmente àquela Igreja, a fim de que ela se fortalecesse. Em Recife, o casal teve dois filhos que faleceram vitimados pelas péssimas condições de saúde pública.

 

Perder os dois primeiros filhos de uma só vez foi um golpe terrível na vida deles. Para agravar a situação, Entzminger também ficou enfermo com uma moléstia local. Com o missionário muito abatido, o catolicismo iniciou mais uma ofensiva contra os evangélicos. Os crentes eram agredidos e sofriam forte retaliação da sociedade. Várias Igrejas eram atacadas. Há registros destas perseguições que aconteceram nos estados de Pernambuco e Paraíba. Houve um episódio em que os comerciantes foram proibidos de vender pão ou qualquer produto a qualquer evangélico.

 

Assim que Entzminger melhorou, contatou um dos principais jornais da cidade de Recife, dizendo que queria defender os crentes das falsas acusações dos padres católicos. Depois de muita insistência, conseguiu uma coluna periódica para defender os postulados evangélicos. Os artigos que passou a escrever no Jornal do Recife foram excelentes. Deus o inspirava. O resultado foi o melhor possível. A perseguição católica perdeu apoio da opinião pública na área de alcance daquele jornal.

 

Nos anos de 1896 a 1897, Willian e a esposa foram várias vezes aos Estados Unidos. Chamava a atenção de todos o fato de ele sempre se reportar ao Brasil como a melhor opção de campo missionário, mesmo depois de tanto ter sofrido aqui. Um dos alunos do Seminário, Arthur Deter, anos depois acabou vindo para o Brasil, influenciado pelas palavras de Willian.

 

Willian e sua esposa ficaram muito angustiados quando, por causa de problemas financeiros da Junta de Richmond, sofreram a ameaça de não voltar ao Brasil. Ele resolveu escrever uma carta para a junta: “Nos últimos tempos, temos ouvido que alguns missionários vão ter que deixar o campo e regressar para suas casas, eu, porém, suplico aos irmãos que não me peçam para voltar, por que eu não vou deixar o Brasil (...) e se não houver alternativa, e os irmãos não puderem mais me pagar, ainda assim eu não vou voltar. (...) Vou ficar no Brasil e tenho fé que Deus vai me sustentar, mesmo que ele tenha que mandar corvos me trazerem pão e água”.

 

Ao receberem esta carta, os diretores da Junta de Missões da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos decidiram que se tivessem que trazer missionários de volta não esta ria entre eles o casal Entzminger.

 

No final do ano de 1899, Willian foi mais uma vez terrivelmente abalado. Desta vez foi sua esposa, que caiu muito doente, provavelmente também atingida pela terrível febre amarela. Ele começou a se desesperar. Orava a Deus dizendo que tinha suportado perder dois filhos e ter ficado várias vezes doente, quase ter morrido e enfrentado dificuldades financeiras. Tudo isto ele também suportou, mas não suportaria perder a mulher que amava.

 

Secretamente, ele decidiu voltar para seu país. Todavia, Grace, mesmo de cama, começou a perceber que seu esposo estava diferente e notou que estava planejando deixar o Brasil, por causa da sua enfermidade. Ela disse, então, ao marido que não queria deixar o Brasil. Mesmo doente, ela obrigou seu esposo a ficar no Brasil. E ainda mais, o obrigou a jurar que não deixaria este país mesmo que ela morresse.

 

Entzminger compartilhou seu drama com outros missionários e foi aconselhado a deixar Recife e ir morar em Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, pois lá o clima era muito agradável. A esposa curou-se. Na época, o casal Entzminger recebeu o convite da Junta para comandar a missão do Rio de Janeiro, capital do Brasil.

 

Assim que chegou ao Rio de Janeiro, no segundo semestre de 1900, Entzminger pastoreou a PIB do Rio, por quatro meses, isto porque voltava dos EUA, já formado em Teologia, o jovem Francisco Soren. Entzminger deu passe ao pastor Soren como pastor da PIB do Rio. A partir daí, ele passou a trabalhar em três outras frentes: a reorganização da PIB de Niterói, que estava fechada, a organização de O Jornal Batista e a expansão das Igrejas Batistas pelo subúrbio carioca.

 

Willian Entzminger trabalhou duro nestes primeiros meses no Rio. No final de 1900, ele já havia reiniciado os cultos da PIB de Niterói. Em janeiro de 1901, depois de um trabalho em conjunto, que envolveu os missionários Bagby, Taylor, Ginsburg, entre outros, Entzminger uniu dois periódicos Batistas que circulavam, um no Sul e outro no Norte do Brasil, e assim fundou a Casa Publicadora e O Jornal Batista, cuja primeira edição circulou neste primeiro mês de 1901.

 

Willian Entzminger dirigiu O Jornal Batista até o ano de 1904, quando teve que deixar o jornal devido a uma terrível doença que o abateu: a hanseníase. Quem ficou em seu lugar foi o missionário Arthur Deter, que viera para o Brasil influenciado pelo próprio Entzminger.

 

Anos depois (1930), na edição especial de O Jornal Batista publicada na morte de Entzminger, Deter deu o seguinte depoimento: “Quando vi aquela mancha, perguntei o que havia acontecido, e porque ele havia se machucado. Ele me disse: 'Você me pergunta por que esta mancha no meu rosto? Vou lhe dizer, amigo,é lepra. Imediatamente, fiquei atordoado, mas Willian, sempre calmo, me disse: ‘Amigo, vou precisar muito de você, assuma o meu lugar, leve este trabalho adiante, pois vou me ausentar, experimentar experiências novas, tristes e horríveis, mas não estou sozinho, o Senhor estará comigo”.

 

Em dezembro de 1904, Entzminger voltou para sua terra natal e foi internado em um hospital de Nova York. Ao final do ano de 1907, já quase três anos doente, Entzminger com a esposa oravam pela cura, a fim de voltar para o Brasil. Uma noite, no final daquele mesmo ano. Deus o curou.

 

As edições de O Jornal Batista do final do ano de 1907 anunciaram que Entzminger estava restabelecido e que voltaria para o Rio. Ele chegou, curado, no início de 1908, e sua cura provocou um grande avivamento espiritual em nossas Igrejas.


 

Marcus Azen*

* Texto originalmente publicado na edição 02/2001 de OJB, veiculada entre 08 e 14 de janeiro.

 

 


 
 

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